BRUNO MORESCHI, FRANCINEA BITENCOURT FONTES (Francy Baniwa),GLICÉRIA “CELIA” TUPINAMBÁ, & IRINEU NJE’A TERENA
Quando a imagem digital falha: metadados, encontros materiais e práticas não hegemônicas
When the Digital Image Fails: Metadata, Material Encounters, and Non-Hegemonic Practices
Resumo
Abstract
Imagens digitais, quando organizadas em conjuntos de dados de treinamento em larga escala, carregam uma promessa de precisão e objetividade. Elas aparecem como garantias tecnológicas de verdade e uma documentação confiável de objetos e situações que podem treinar máquinas para ver, classificar e prever. Mas até que ponto essas imagens e seus dados associados entregam robustez de acurácia? Este artigo examina o fracasso dessa promessa por meio das práticas de pesquisas feitas por pesquisadores indígenas das etnias Baniwa, Tupinambá e Terena (Brasil). A partir de distintos engajamentos com museus, arquivos e conhecimentos ancestrais, argumentamos que a lógica dominante dos conjuntos de dados e metadados falha sistematicamente ao não considerar formas relacionais, corporificadas e vivas de conhecimento. O conceito de “museu vivo” desafia a lógica fixa e extrativista das coleções e conjuntos de dados, propondo em vez disso que os objetos não são dados, mas portadores vivos de memória e território. Imagens coloniais transformadas em “imagens-parente” podem criar redes relacionais que recusam a lógica da documentação neutra. E a reativação de práticas cerâmicas ancestrais demonstra que algumas formas de conhecimento não podem ser transmitidas apenas por meio de imagens digitais, exigindo presença, prática corporificada e tempo coletivo. Juntas, essas pesquisas expõem os limites dos metadados e apontam para protocolos alternativos para relacionar-se com imagens, objetos e conhecimento. Em comum, esses protocolos são baseados não na extração e classificação, mas na relação, responsabilidade e cuidado.
Digital images, when organized into large-scale training datasets, carry a promise of precision and objectivity. They appear as technological guarantees of truth and reliable documentation of objects and situations that can train machines to see, classify, and predict. But to what extent do these images and their associated data deliver robust accuracy? This article examines the failure of this promise through research practices carried out by Indigenous researchers from the Baniwa, Tupinambá, and Terena peoples (Brazil). Drawing on distinct engagements with museums, archives, and ancestral knowledge, we argue that the dominant logic of datasets and metadata systematically fails by not considering relational, embodied, and living forms of knowledge. The concept of the “living museum” challenges the fixed and extractivist logic of collections and datasets, proposing instead that objects are not data, but living carriers of memory and territory. Colonial images transformed into “kin-images” can create relational networks that refuse the logic of neutral documentation. And the reactivation of ancestral ceramic practices demonstrates that some forms of knowledge cannot be transmitted through digital images alone, requiring presence, embodied practice, and collective time. Together, these research projects expose the limits of metadata and point toward alternative protocols for relating to images, objects, and knowledge. What these protocols have in common is that they are based not on extraction and classification, but on relation, responsibility, and care.
Palavras-chave
imagens digitais; metadados; curadoria indígena; museu vivo; imagem-parente; cerâmica; banco de dados; aprendizado de máquina; práticas decoloniais
Keywords
digital images; metadata; Indigenous curation; living museum; kin-image; ceramics; database; machine learning; decolonial practices
1. Introdução: A Promessa e o fracasso da imagem digital
1. Introduction: The Promise and Failure of the Digital Image
Nas últimas décadas, a proliferação de imagens digitais transformou não apenas como vemos o mundo, mas como treinamos máquinas para vê-lo. Conjuntos de dados de visão em larga escala são coleções de milhões ou bilhões de imagens, anotadas com rótulos, palavras-chave e caixas delimitadoras. A partir dessa arquitetura robusta, esses conjuntos de dados tornaram-se a infraestrutura fundamental para tecnologias de visão computacional. Eles alimentam sistemas de reconhecimento facial, plataformas de mídia social, veículos autônomos e os modelos de IA generativa que agora permeiam a vida cotidiana. Essas imagens não são representações neutras, mas materiais que treinam sistemas para replicar ideologias e conhecimentos historicamente estabelecidos (Moreschi, 2023, Prabhu and Birhane, 2020).
In recent decades, the proliferation of digital images has transformed not only how we see the world, but how we train machines to see it. Large-scale vision datasets are collections of millions or billions of images, annotated with labels, keywords, and bounding boxes. From this robust architecture, these datasets have become the fundamental infrastructure for computer vision technologies. They power facial recognition systems, social media platforms, autonomous vehicles, and the generative AI models that now permeate everyday life. These images are not neutral representations, but materials that train systems to replicate historically established ideologies and knowledge (Moreschi, 2023, Prabhu and Birhane, 2020).
A imagem digital, nesse contexto, carrega uma promessa específica. Ela aparece como uma forma de documentação ou, em outras palavras, uma garantia tecnológica de verdade. Como Manovich (2002) propõe, a imagem digital pode ser compreendida dentro de uma lógica de banco de dados: um repositório de dados, um arquivo estruturado que pode armazenar camadas de informações, metadados e traços contextuais. Os metadados (“dados sobre dados”) são o que permitem que os computadores vejam e recuperem imagens, conectando-as com outros dados de maneiras que parecem entregar precisão, objetividade e abrangência.
The digital image, in this context, carries a specific promise. It appears as a form of documentation or, in other words, a technological guarantee of truth. As Manovich (2002) proposes, the digital image can be understood within a database logic: a repository of data, a structured archive that can store layers of information, metadata, and contextual traces. Metadata (“data about data”) are what allow computers to see and retrieve images, connecting them with other data in ways that seem to deliver precision, objectivity, and comprehensiveness.
No entanto, essa promessa é construída sobre bases instáveis. Como pesquisadores em estudos críticos de dados demonstraram, os conjuntos de dados não são materiais neutros. Eles são construídos por meio de escolhas, vieses e exclusões específicas (Crawford and Paglen, 2019). As imagens que povoam esses conjuntos de dados vêm predominantemente de plataformas de mídia social como o Flickr: imagens que nunca foram produzidas para treinar máquinas e que frequentemente circulam sem consentimento. Elas são organizadas por meio de categorias que refletem estruturas culturais particulares, predominantemente as do Norte Global, particularmente os Estados Unidos. Elas reduzem cenas visuais complexas a rótulos simplificados, perdendo contexto, relação e significado.
However, this promise is built on unstable foundations. As researchers in critical data studies have demonstrated, datasets are not neutral materials. They are constructed through specific choices, biases, and exclusions (Crawford and Paglen, 2019). The images that populate these datasets come predominantly from social media platforms such as Flickr: images that were never produced to train machines and that often circulate without consent. They are organized through categories that reflect particular cultural structures, predominantly those of the Global North, particularly the United States. They reduce complex visual scenes to simplified labels, losing context, relation, and meaning.
Este artigo argumenta que o fracasso da imagem digital como um arquivo confiável de significado cultural se torna visível quando nos atentamos a práticas que operam fora ou em atrito com a lógica dominante dos conjuntos de dados e metadados. Baseamo-nos nas pesquisas realizadas por três dos autores deste artigo para embasar este argumento de fracasso. Os trabalhos, desenvolvidos em diferentes contextos e por meio de diferentes metodologias, desafiam coletivamente a ideia de que o conhecimento pode ser reduzido a dados, de que as imagens podem ser separadas de seus contextos relacionais e de que a preservação pode ocorrer apenas por meio da extração e armazenamento.
This article argues that the failure of the digital image as a reliable archive of cultural meaning becomes visible when we pay attention to practices that operate outside of, or in friction with, the dominant logic of datasets and metadata. We draw on research carried out by three of the authors of this article to support this argument of failure. The works, developed in different contexts and through different methodologies, collectively challenge the idea that knowledge can be reduced to data, that images can be separated from their relational contexts, and that preservation can occur solely through extraction and storage.
A primeira pesquisa trata sobre curadoria indígena e apresenta o conceito de “museu vivo” para repensar como as coleções são catalogadas, digitalizadas e acessadas. Com ações entre a região do Alto Rio Negro, na Amazônia, e museus em São Paulo e na Europa, a pesquisa argumenta que os objetos não são apenas dados, mas portadores vivos de memória, conhecimento e território. O conceito de “museu vivo” desloca a preservação de uma lógica de armazenamento para uma lógica de relação. Assim, o conhecimento existe não em objetos isolados, mas em práticas, corpos e territórios.
The first research project concerns Indigenous curation and presents the concept of the “living museum” to rethink how collections are catalogued, digitized, and accessed. With actions between the Upper Rio Negro region in the Amazon and museums in São Paulo and Europe, the research argues that objects are not merely data, but living carriers of memory, knowledge, and territory. The concept of the “living museum” shifts preservation from a logic of storage to a logic of relation. Thus, knowledge exists not in isolated objects, but in practices, bodies, and territories.
Já a segunda pesquisa tem como centro as imagens coloniais encontradas em arquivos e museus no Brasil e na Europa em combinação com tecnologias brancas, mas também indígenas, incluindo abordagens espirituais e relacionais. Ao transformar essas imagens em “imagens-parente”, a pesquisa cria novas relações entre passado e presente, desafiando a ideia de que as imagens são objetos passivos a serem classificados e propondo, em vez disso, que são participantes ativos em redes de memória, responsabilidade e cuidado.
The second research project centers on colonial images found in archives and museums in Brazil and Europe in combination with “white” technologies, but also Indigenous ones, including spiritual and relational approaches. By transforming these images into “kin-images,” the research creates new relations between past and present, challenging the idea that images are passive objects to be classified and proposing instead that they are active participants in networks of memory, responsibility, and care.
Por fim, a terceira e última pesquisa reconecta comunidades Terena em São Paulo e Mato Grosso do Sul por meio da reativação de práticas cerâmicas ancestrais. Essas práticas demonstram que algumas formas de conhecimento não podem ser transmitidas apenas por meios digitais: elas dependem de presença, ritual, prática corporificada e tempo coletivo. Isso desafia a suposição fundamental do aprendizado de máquina: de que todo conhecimento pode ser transformado em dados digitais.
Finally, the third and last research project reconnects Terena communities in São Paulo and Mato Grosso do Sul through the reactivation of ancestral ceramic practices. These practices demonstrate that some forms of knowledge cannot be transmitted through digital means alone: they depend on presence, ritual, embodied practice, and collective time. This challenges the fundamental assumption of machine learning: that all knowledge can be transformed into digital data.
Por meio dessas três pesquisas, argumentamos que o fracasso da imagem digital não é meramente um problema técnico a ser resolvido com melhores algoritmos ou conjuntos de dados mais abrangentes. É um sintoma de suposições epistemológicas mais profundas sobre o que é o conhecimento, como ele pode ser transmitido e quem tem autoridade para defini-lo. As práticas de pesquisadores indígenas são enraizadas em diferentes ontologias, diferentes relações com objetos e imagens e diferentes compreensões de transmissão. Por isso, elas podem apontar para protocolos alternativos para trabalhar com imagens e dados. Esses protocolos são baseados não na extração e classificação, mas na relação, responsabilidade e cuidado.
Through these three research projects, we argue that the failure of the digital image is not merely a technical problem to be solved with better algorithms or more comprehensive datasets. It is a symptom of deeper epistemological assumptions about what knowledge is, how it can be transmitted, and who has the authority to define it. The practices of Indigenous researchers are rooted in different ontologies, different relationships with objects and images, and different understandings of transmission. For this reason, they can point toward alternative protocols for working with images and data. These protocols are based not on extraction and classification, but on relation, responsibility, and care.
2. Conjuntos de Dados de Visão em Larga Escala, a arquitetura das imagens de treinamento e a lógica dos Metadados
2. Large-Scale Vision Datasets, the Architecture of Training Images, and the Logic of Metadata
Para entender o que falha quando imagens digitais são usadas para treinar máquinas, devemos primeiro entender como essas imagens são organizadas. Conjuntos de Dados de Visão em Larga Escala (LSVDs) são coleções enormes de imagens, cada uma acompanhada por metadados: rótulos, palavras-chave, caixas delimitadoras e outras anotações. Um dos pioneiros, o ImageNet, contém aproximadamente 14 milhões de imagens, enquanto o LAION-5B inclui cerca de 5 bilhões.
To understand what fails when digital images are used to train machines, we must first understand how these images are organized. Large-Scale Vision Datasets (LSVDs) are enormous collections of images, each accompanied by metadata: labels, keywords, bounding boxes, and other annotations. One of the pioneers, ImageNet, contains approximately 14 million images, while LAION-5B includes around 5 billion.
Essas imagens geralmente vêm de plataformas de mídia social, particularmente o Flickr. Elas não foram originalmente produzidas para treinar máquinas. Como Crawford e Paglen (2019) mostraram em seu influente trabalho “Excavating AI”, essas imagens carregam as histórias, vieses e relações de poder de seus contextos de produção. As categorias usadas para organizá-las, que são frequentemente extraídas do WordNet, uma espécie de dicionário digital, refletem estruturas culturais particulares que estão longe de ser universais.
These images generally come from social media platforms, particularly Flickr. They were not originally produced to train machines. As Crawford and Paglen (2019) showed in their influential work “Excavating AI,” these images carry the histories, biases, and power relations of their contexts of production. The categories used to organize them, which are often extracted from WordNet, a kind of digital dictionary, reflect particular cultural structures that are far from universal.
Além disso, o processo de transformar imagens em dados de treinamento envolve múltiplas camadas de trabalho humano. As imagens devem ser coletadas, filtradas, anotadas e verificadas. Esse trabalho é frequentemente terceirizado para trabalhadores de plataformas como o Amazon Mechanical Turk, criando o que Gray and Suri (2019) chamam de “trabalho fantasma”, um trabalho invisível que sustenta a indústria de IA. Como Irani (2015) documentou, esse trabalho cultural de microtarefas molda quais tipos de conhecimento se tornam visíveis e o que permanece invisível.
Furthermore, the process of transforming images into training data involves multiple layers of human labour. Images must be collected, filtered, annotated, and verified. This work is often outsourced to workers on platforms such as Amazon Mechanical Turk, creating what Gray and Suri (2019) call “ghost work,” invisible labour that sustains the AI industry. As Irani (2015) documented, this cultural work of microtasks shapes which kinds of knowledge become visible and what remains invisible.
O conjunto de dados Google Open Images, por exemplo, inclui múltiplas anotações por imagem, incluindo caixas delimitadoras que identificam objetos específicos dentro do quadro. Isso cria a aparência de descrição abrangente: tudo na imagem que importa foi identificado e rotulado. No entanto, essa aparência é enganosa. As categorias disponíveis para rotulagem são limitadas pela ontologia do conjunto de dados. As relações entre os objetos são aplainadas. O contexto é removido. A imagem se torna uma coleção de elementos discretos, em vez de uma cena com histórias, significados e conexões.
The Google Open Images dataset, for example, includes multiple annotations per image, including bounding boxes that identify specific objects within the frame. This creates the appearance of comprehensive description: everything in the image that matters has been identified and labeled. However, this appearance is misleading. The categories available for labeling are limited by the ontology of the dataset. The relationships between objects are flattened. Context is removed. The image becomes a collection of discrete elements rather than a scene with histories, meanings, and connections.

Essas imagens nesses conjuntos de dados são representações de porções do mundo, especialmente aquelas ligadas a práticas de consumo e valores hegemônicos (Moreschi, 2024). Elas oferecem descrições muito limitadas de imagens, frequentemente a partir de uma perspectiva do Norte Global, particularmente os Estados Unidos. Elas não são materiais que criam máquinas inteligentes, mas materiais que treinam sistemas para replicar ideologias e conhecimentos historicamente estabelecidos.
These images in these datasets are representations of portions of the world, especially those connected to consumer practices and hegemonic values (Moreschi, 2024). They offer very limited descriptions of images, often from a Global North perspective, particularly that of the United States. They are not materials that create intelligent machines, but materials that train systems to replicate historically established ideologies and knowledge.
Como Noble (2018) mostra, as categorias e classificações incorporadas nesses sistemas não são neutras, mas refletem e reforçam estruturas de poder existentes. De forma complementar Crawford (2021) discute como a extração de dados do mundo é uma forma de poder que tem custos planetários.
As Noble (2018) shows, the categories and classifications embedded in these systems are not neutral, but reflect and reinforce existing power structures. Complementarily, Crawford (2021) discusses how the extraction of data from the world is a form of power that has planetary costs.
O fracasso da imagem digital, então, não é um fracasso de precisão técnica, mas um fracasso de epistemologia. A suposição de que o conhecimento pode ser reduzido a dados, de que as imagens podem ser separadas de seus contextos, de que a classificação é um ato neutro: essas suposições são o que falham quando encontramos outras formas de conhecer e produzir conhecimento associado.
The failure of the digital image, then, is not a failure of technical precision, but a failure of epistemology. The assumption that knowledge can be reduced to data, that images can be separated from their contexts, that classification is a neutral act: these assumptions are what fail when we encounter other ways of knowing and producing associated knowledge.
3. O Museu Vivo e radicalização da criação de metadados
3. The Living Museum and the Radicalization of Metadata Creation
O conceito de museu vivo começa a partir de uma observação fundamental: os objetos mantidos em museus não são simplesmente coisas a serem classificadas e armazenadas. Eles são portadores vivos de memória, conhecimento e relação: “Por detrás de cada peça há transmissão de conhecimento ancestral, bem como a memória coletiva de um povo e de um território que respira e permanece vivo” (Baniwa, 2025, tradução livre).
The concept of the living museum begins from a fundamental observation: the objects kept in museums are not simply things to be classified and stored. They are living carriers of memory, knowledge, and relation: “Behind each piece there is the transmission of ancestral knowledge, as well as the collective memory of a people and of a territory that breathes and remains alive” (Baniwa, 2025, free translation).
Essa compreensão desafia diretamente a lógica dos conjuntos de dados, que transformam imagens e objetos em unidades isoladas de dados, despojadas de seus contextos e relações. Em um conjunto de dados, uma imagem de uma cesta Baniwa é reduzida a um arquivo com rótulos: “cesta”, “indígena”, “artesanato”. O conhecimento embutido em sua tecelagem, as técnicas transmitidas através de gerações, as relações entre a tecelã e os materiais, as histórias carregadas pelo design, tudo isso se perde. A extensão desta perda não é pequena. No início da constituição do Museu dos Povos Indígenas, em São Paulo, era possível encontrar coleções que eram “frequentemente dispersas e catalogadas de maneira inadequada, vítimas de descontextualização ao longo da história” (Baniwa, 2025).
This understanding directly challenges the logic of datasets, which transform images and objects into isolated units of data, stripped of their contexts and relationships. In a dataset, an image of a Baniwa basket is reduced to a file with labels: “basket,” “Indigenous,” “handicraft.” The knowledge embedded in its weaving, the techniques transmitted across generations, the relationships between the weaver and the materials, the stories carried by the design, all of this is lost. The extent of this loss is not small. At the beginning of the establishment of the Museum of Indigenous Peoples in São Paulo, it was possible to find collections that were “frequently dispersed and inadequately catalogued, victims of decontextualization throughout history” (Baniwa, 2025).
A alternativa para isso é radical: o “museu vivo”. Esse conceito desloca a ideia de preservação para a ideia de relação. Em vez de objetos isolados em coleções, o conhecimento existe no território, nas práticas, nos corpos e nas relações, tudo isso sempre em transformação.
The alternative to this is radical: the “living museum.” This concept shifts the idea of preservation toward the idea of relation. Instead of objects isolated in collections, knowledge exists in territory, practices, bodies, and relationships, all of these always in transformation.
Para o povo Baniwa do Alto Rio Negro no Brasil, o próprio território é um museu vivo (Baniwa, 2025). Nessa estrutura, a imagem não é um registro estático, mas parte de um sistema vivo de transmissão. O museu não é um edifício que abriga objetos, mas uma rede de relações que sustenta o conhecimento.
For the Baniwa people of the Upper Rio Negro in Brazil, the territory itself is a living museum (Baniwa, 2025). Within this structure, the image is not a static record, but part of a living system of transmission. The museum is not a building that houses objects, but a network of relationships that sustains knowledge.
Isso tem implicações diretas para como pensamos sobre dados e metadados. Enquanto os conjuntos de dados tentam estabilizar imagens por meio de categorias, rótulos e estruturas fixas, o museu vivo aponta para formas de organização baseadas em contexto, relação e uso. O significado não está dentro da imagem, mas emerge das conexões entre pessoas, objetos, memórias e situações.
This has direct implications for how we think about data and metadata. While datasets attempt to stabilize images through categories, labels, and fixed structures, the living museum points toward forms of organization based on context, relation, and use. Meaning is not inside the image, but emerges from the connections among people, objects, memories, and situations.
A proposta de construir um “Museu Baniwa” na comunidade de Assunção do Içana é talvez a forma mais emblemática de praticar o conceito de “museu vivo”. Proposta por Francy Baniwa, uma das autoras deste texto, a ideia não é criar um museu no sentido ocidental, um edifício que coleta e exibe objetos. A ideia é criar um espaço onde o conhecimento é produzido, compartilhado e transmitido por meio da prática. É um espaço de reconexão, onde os fios de vida e memória entre povos e objetos podem ser tecidos novamente. Esse movimento de conexão é o que compõe a vivacidade do “museu vivo”.
The proposal to build a “Baniwa Museum” in the community of Assunção do Içana is perhaps the most emblematic way of practicing the concept of the “living museum.” Proposed by Francy Baniwa, one of the authors of this text, the idea is not to create a museum in the Western sense, a building that collects and displays objects. The idea is to create a space where knowledge is produced, shared, and transmitted through practice. It is a space of reconnection, where the threads of life and memory between peoples and objects can be woven together again. This movement of connection is what constitutes the liveliness of the “living museum.”

A pesquisa também inclui pesquisas em museus brancos. A partir do contraste entre esses museus e a radicalidade viva do “museu vivo”, é possível revelar as limitações das classificações técnicas. Assim como nos sistemas de aprendizado de máquina, onde as imagens são reduzidas a rótulos e metadados, há sempre perdas e simplificações no processo tradicional de rotulagem de objetos em museus. Isso se acentua ainda mais quando esses objetos são de povos de outras culturas que não a cultura branca. As categorias disponíveis para descrever objetos indígenas frequentemente falham em capturar seus significados e importância.
The research also includes research in “white” museums. Through the contrast between these museums and the living radicality of the “living museum,” it is possible to reveal the limitations of technical classifications. As in machine learning systems, where images are reduced to labels and metadata, there are always losses and simplifications in the traditional process of labeling objects in museums. This becomes even more pronounced when these objects belong to peoples from cultures other than “white” culture. The categories available for describing Indigenous objects often fail to capture their meanings and importance.
Assim, o conceito de “museu vivo” propõe também um modelo de catalogação e digitalização que permitiria às comunidades indígenas acessar, interpretar e reivindicar seus bens culturais de maneira mais autônoma e fundamentada. Isso não é simplesmente sobre adicionar mais metadados, mais rótulos, mais categorias. É sobre repensar fundamentalmente quem tem autoridade para descrever e classificar, que tipos de conhecimento são valorizados e como os objetos podem permanecer conectados a seus contextos. Como escreve Baniwa (2025, tradução livre), “os museus não são donos dos acervos que se encontram em suas salas e reservas; seus verdadeiros donos, seus donos originários, são os povos que habitam territórios diversos, ancestrais”.
Thus, the concept of the “living museum” also proposes a model of cataloguing and digitization that would allow Indigenous communities to access, interpret, and reclaim their cultural assets in a more autonomous and grounded way. This is not simply about adding more metadata, more labels, more categories. It is about fundamentally rethinking who has the authority to describe and classify, what kinds of knowledge are valued, and how objects can remain connected to their contexts. As Baniwa writes (2025, free translation), “museums are not the owners of the collections found in their galleries and storage rooms; their true owners, their original owners, are the peoples who inhabit diverse, ancestral territories.”
Essa reformulação da propriedade tem implicações profundas para os metadados. Se os museus não são proprietários, mas guardiões, então os metadados não são uma ferramenta de posse, mas uma ferramenta de prestação de contas. Eles devem servir não para classificar e controlar, mas para conectar e retornar. O conceito de “museu vivo” é radical porque desloca a lógica da preservação da extração para a relação, da propriedade para o cuidado.
This reformulation of ownership has profound implications for metadata. If museums are not owners but guardians, then metadata are not a tool of possession, but a tool of accountability. They should serve not to classify and control, but to connect and return. The concept of the “living museum” is radical because it shifts the logic of preservation from extraction to relation, from ownership to care.
4. Imagem-Parente e um arquivo relacional complexo
4. Kin-Image and a Complex Relational Archive
A segunda pesquisa que este artigo discute para argumentar a falência da acurácia da imagem digital começa com um tipo diferente de encontro. Este encontro é entre uma artista indígena e imagens coloniais encontradas em arquivos e museus no Brasil e na Europa. Essas imagens foram produzidas por viajantes, artistas e colonizadores europeus que retrataram o povo Tupinambá do Brasil. Essas imagens não são documentos neutros. Foram produzidas em contextos de violência, incompreensão e dominação. Frequentemente reduzem os povos indígenas a estereótipos: o canibal, o exótico, ou monstruoso.
The second research project that this article discusses in order to argue for the failure of the accuracy of the digital image begins with a different kind of encounter. This encounter is between an Indigenous artist and colonial images found in archives and museums in Brazil and Europe. These images were produced by European travelers, artists, and colonizers who depicted the Tupinambá people of Brazil. These images are not neutral documents. They were produced in contexts of violence, misunderstanding, and domination. They often reduce Indigenous peoples to stereotypes: the cannibal, the exotic, or the monstrous.
No entanto, esta pesquisa não simplesmente rejeita essas imagens. Em vez disso, ela trabalha diretamente com essas imagens, usando tanto ferramentas tecnológicas (como produção de imagens de altíssima resolução) quanto abordagens espirituais e relacionais. Nesse processo, a imagem não é mais apenas algo para olhar, mas algo que você pode ouvir, engajar-se e construir uma relação. Em entrevista a ser publicada, Glicéria Tupinambá, a responsável por esta pesquisa e também autora deste artigo, explica que as investigações começaram com sonhos que guiaram a olhar mais de perto para as bordunas de sua cultura mantidos em museus europeus, revelando detalhes que outros não podiam ver.
However, this research does not simply reject these images. Instead, it works directly with these images, using both technological tools (such as the production of extremely high-resolution images) and spiritual and relational approaches. In this process, the image is no longer merely something to look at, but something you can listen to, engage with, and build a relationship with. In an interview to be published, Glicéria Tupinambá, who is responsible for this research and is also an author of this article, explains that the investigations began with dreams that guided her to look more closely at the clubs of her culture kept in European museums, revealing details that others could not see.
O conceito de “imagem-parente” é central para esta pesquisa (Pitta, 2026). Quando as imagens se tornam parentes, elas não são mais objetos distantes, mas parte de redes de memória, responsabilidade e cuidado. Isso tem grande capacidade de complexificar a lógica dos conjuntos de dados, onde as imagens também são tratadas como conectivas de outros dados. Aumentar significativamente essa conexão é o que propõe a ideia de imagem-parente: um sistema relacional onde as imagens existem através de múltiplas e distintas conexões.
The concept of “kin-image” is central to this research (Pitta, 2026). When images become kin, they are no longer distant objects, but part of networks of memory, responsibility, and care. This has a great capacity to complexify the logic of datasets, where images are also treated as connective elements of other data. Significantly increasing this connection is what the idea of kin-image proposes: a relational system in which images exist through multiple and distinct connections.

Glicéria Tupinambá and Fernanda Pitta sharing research results from European museums with the Tupinambá community. Credit: film made by Glicéria Tupinambá for the project Decay Without Morning: Future Thinking Heritage Practices
Ao reinscrever imagens como parentes, Glicéria as reintegra em circuitos de memória, responsabilidade e cuidado. Nessa estrutura, os metadados não são mais apenas dados sobre a imagem. Eles se tornam um espaço para negociação, consenso e novas formas de cuidar, preservar e exibir. A prática de diplomacia de Glicéria com os museus, engajar-se em conversas, construir relacionamentos, negociar significados, tudo isso é uma forma expandida de criação de metadados. Não se trata de adicionar mais rótulos, mas de transformar todo o campo relacional em que as imagens existem.
By reinscribing images as kin, Glicéria reintegrates them into circuits of memory, responsibility, and care. Within this structure, metadata are no longer merely data about the image. They become a space for negotiation, consensus, and new ways of caring for, preserving, and displaying. Glicéria’s practice of diplomacy with museums—engaging in conversations, building relationships, negotiating meanings—all of this is an expanded form of metadata creation. It is not about adding more labels, but about transforming the entire relational field in which images exist.
Esse jogo mais complexo de relações permite também um conhecimento para além da teoria. Muitas vezes, os museus possuem vocabulário, mas não conhecem de fato os materiais. Nunca houve manipulação de fato com o que constitui o objeto ali catalogado. Assim, processos de simplificação tendem a acontecer, como comparar o material com algo que se tem à disposição no contexto cultural do museu. Isso dificulta uma comunicação mais profunda e específica.
This more complex interplay of relationships also enables knowledge beyond theory. Museums often possess vocabulary, but do not actually know the materials. There has never been actual handling of what constitutes the object catalogued there. Thus processes of simplification tend to occur, such as comparing the material with something available within the museum’s cultural context. This makes deeper and more specific communication difficult.
Essa crítica se estende ao uso de preservativos e líquidos protetores em objetos indígenas. Essa prática, pensada para conservar, frequentemente apaga traços importantes. Na mesma entrevista já citada, Glicéria comenta (tradução livre): “Práticas assim apagam etapas importantes, como os rituais que passam pelas mãos das mulheres, os pigmentos, as camadas relacionadas ao invisível.” A preservação, nesse contexto, torna-se uma forma de apagamento.
This critique extends to the use of preservatives and protective liquids on Indigenous objects. This practice, intended to conserve, often erases important traces. In the same interview already cited, Glicéria comments (free translation): “Practices like these erase important stages, such as the rituals that pass through women’s hands, the pigments, the layers related to the invisible.” Preservation, in this context, becomes a form of erasure.
5. Transmissão corporificada e a recusa do virtual
5. Embodied Transmission and the Refusal of the Virtual
A última pesquisa começa a partir de uma perda para toda uma comunidade. Mesmo que a prática cerâmica seja uma característica do povo Terena, a comunidade, Kopenoti, perto de Bauru, no estado de São Paulo, Brasil, já não praticava mais este conhecimento. A prática da cerâmica havia adormecido, como os terenas dali costumavam falar. A migração do povo Terena do Mato Grosso do Sul para São Paulo em meados do século XX havia interrompido a cadeia de transmissão (Terena, 2025; ver também Carvalho, 1979 para contexto histórico).
The final research project begins from a loss for an entire community. Even though ceramic practice is a characteristic of the Terena people, the Kopenoti community, near Bauru, in the state of São Paulo, no longer practiced this knowledge. The practice of ceramics had fallen asleep, as the Terena people there used to say. The migration of the Terena people from Mato Grosso do Sul to São Paulo in the mid-twentieth century had interrupted the chain of transmission (Terena, 2025; see also Carvalho, 1979 for historical context).
Mas o que era necessário, não era documentação da perda, mas reativação. Irineu Tereja, o coordenador desta pesquisa e também autor do artigo, não podia aprender cerâmica através de livros, fotografias ou vídeos. Tais registros não existem. Assim, ele teve que viajar para o Mato Grosso do Sul, onde a prática permanecia viva, e aprender com as mulheres ceramistas que detinham esse conhecimento.
But what was needed was not documentation of the loss, but reactivation. Irineu Tereja, the coordinator of this research and also an author of the article, could not learn ceramics through books, photographs, or videos. Such records do not exist. Thus, he had to travel to Mato Grosso do Sul, where the practice remained alive, and learn from the women ceramicists who held this knowledge.
Essa percepção desafia uma suposição fundamental do aprendizado de máquina: de que todo conhecimento pode ser transformado em dados e transmitido à distância, de forma virtual. A pesquisa demonstra que algumas formas de conhecimento não acontecem à distância. Elas não acontecem apenas através de imagens digitais, arquivos ou conjuntos de dados. Elas exigem presença, prática corporificada e tempo coletivo.
This realization challenges a fundamental assumption of machine learning: that all knowledge can be transformed into data and transmitted at a distance, virtually. The research demonstrates that some forms of knowledge do not happen at a distance. They do not happen solely through digital images, archives, or datasets. They require presence, embodied practice, and collective time.
O processo de reativação da cerâmica não foi simples. Exigiu múltiplas etapas: primeiro, uma visita de aproximação à comunidade Argola no Mato Grosso do Sul, seguindo protocolos culturais e obtendo consentimento da liderança. Depois, uma residência de vinte dias em outubro de 2024, imergindo nos aspectos técnicos e cosmológicos da produção cerâmica. Finalmente, uma oficina intercultural em janeiro de 2026, trazendo as mestras ceramistas do Mato Grosso do Sul para São Paulo para ensinar as mulheres de Kopenoti diretamente (Terena, 2026).
The process of reactivating ceramics was not simple. It required multiple stages: first, an initial visit to the Argola community in Mato Grosso do Sul, following cultural protocols and obtaining consent from the leadership. Then, a twenty-day residency in October 2024, immersing in the technical and cosmological aspects of ceramic production. Finally, an intercultural workshop in January 2026, bringing the master ceramicists from Mato Grosso do Sul to São Paulo to teach the women of Kopenoti directly (Terena, 2026).
O aprendizado em si foi um processo de tempo: de ir e voltar, de repetição, de ser corrigido, de ser aceito. Trabalhar com as mestras ceramistas Iracema Mendes e Eunice Júlio envolveu ser corrigido em coisas básicas. Quando era sugerido continuar o trabalho sob uma mangueira para evitar o sol, Iracema ensinou-lhe que isso não era possível: o solo sob as árvores é mais úmido e inadequado para a queima. A transmissão do conhecimento também envolveu restrições rituais. Não se pode comer nada com sal enquanto se trabalha com cerâmica, uma regra que foi estritamente respeitada.
The learning itself was a process of time: of going and returning, of repetition, of being corrected, of being accepted. Working with master ceramicists Iracema Mendes and Eunice Júlio involved being corrected on basic things. When it was suggested that they continue working under a mango tree to avoid the sun, Iracema taught him that this was not possible: the soil beneath trees is more humid and unsuitable for firing. The transmission of knowledge also involved ritual restrictions. One cannot eat anything with salt while working with ceramics, a rule that was strictly respected.

Irineu Terena, Iracema Mendes, and Eunice Júlio during ceramics workshops in the Argola community in Mato Grosso do Sul, 2024. Credit: Irineu Terena.
Esta última pesquisa mostra que algumas formas de conhecimento não podem ser reduzidas a informações que podem ser armazenadas, compartilhadas ou acessadas remotamente ou de forma descontextualizada. As técnicas da cerâmica Terena não são apenas informações técnicas. Elas estão conectadas ao corpo, à terra, ao cosmos, ao ciclo lunar e às relações sociais. Estas são camadas que não se traduzem facilmente em formatos digitais ou sistemas computacionais.
This final research project shows that some forms of knowledge cannot be reduced to information that can be stored, shared, or accessed remotely or in a decontextualized manner. Terena ceramic techniques are not merely technical information. They are connected to the body, the earth, the cosmos, the lunar cycle, and social relationships. These are layers that do not translate easily into digital formats or computational systems.
Isso tem implicações para como pensamos sobre imagens e metadados. Se uma técnica cerâmica não pode ser transmitida através de fotografias e instruções, então o que a fotografia está capturando? Ela captura a superfície, a forma, os detalhes visíveis. Mas não captura o conhecimento de como sentir a argila, como julgar a temperatura do fogo, como realizar os rituais que acompanham o trabalho.
This has implications for how we think about images and metadata. If a ceramic technique cannot be transmitted through photographs and instructions, then what is the photograph capturing? It captures the surface, the form, the visible details. But it does not capture the knowledge of how to feel the clay, how to judge the temperature of the fire, how to perform the rituals that accompany the work.
O conceito de “cadeia de transmissão” é crucial aqui. Como a pesquisa de Irineu demonstra, a transmissão não é um evento único, mas um processo que requer continuidade, repetição e relação. A reativação da cerâmica em Kopenoti não aconteceu através de uma única oficina, mas através de um processo sustentado de troca: visitas, residências, conversas e prática contínua. Foi e é um banco de dados em processo.
The concept of the “chain of transmission” is crucial here. As Irineu’s research demonstrates, transmission is not a single event, but a process that requires continuity, repetition, and relation. The reactivation of ceramics in Kopenoti did not happen through a single workshop, but through a sustained process of exchange: visits, residencies, conversations, and continuous practice. It was and is a database in process.
A pesquisa revela a política da presença, mas também a porosidade possível de ser construída nesta presença. Como homem trabalhando em um domínio tradicionalmente feminino, Irineu teve que navegar por dinâmicas complexas de gênero. A questão foi resolvida porque todos entenderam que o mais urgente era ativar a cerâmica em sua comunidade. Ele explicou às mulheres que estava ali para aprender, reconhecendo que esta tradição é delas, mas que nesta situação, era necessário superar essa barreira para que a técnica não morresse (Terena, 2025).
The research reveals the politics of presence, but also the possible porosity that can be constructed within this presence. As a man working in a traditionally female domain, Irineu had to navigate complex gender dynamics. The issue was resolved because everyone understood that the most urgent matter was to activate ceramics in his community. He explained to the women that he was there to learn, acknowledging that this tradition belongs to them, but that in this situation, it was necessary to overcome this barrier so that the technique would not die (Terena, 2025).
O papel do pesquisador, nessa estrutura, não é documentar e extrair, mas construir pontes. A última etapa da pesquisa envolveu voltar à comunidade de Kopenoti e realizar oficinas de cerâmicas às mulheres dali. Neste contexto, o pesquisador Irineu Terena explicou que não estava ali para ensinar nada. Ele explicou que esse trabalho sempre foi delas: “Eu só estou aqui para ser uma ponte, despertando em vocês o que estava adormecido”.
The role of the researcher, within this structure, is not to document and extract, but to build bridges. The final stage of the research involved returning to the Kopenoti community and holding ceramics workshops for the women there. In this context, researcher Irineu Terena explained that he was not there to teach anything. He explained that this work had always been theirs: “I am only here to be a bridge, awakening in you what was asleep.”
6. Repensando imagens e metadados: rumo a protocolos relacionais
6. Rethinking Images and Metadata: Toward Relational Protocols
Os três estudos de caso apresentados aqui revelam os limites dos metadados como tecnologia de conhecimento. Os metadados, em sua forma atual, são construídos sobre suposições que não se sustentam em diferentes sistemas de conhecimento. Eles assumem que os objetos podem ser reduzidos a unidades discretas de informação. Assumem que o significado está contido dentro do objeto ou imagem em si, em vez de emergir das relações. Assumem que a classificação é um ato neutro, em vez de uma prática moldada por estruturas culturais particulares.
The three case studies presented here reveal the limits of metadata as a technology of knowledge. Metadata, in their current form, are built on assumptions that do not hold across different knowledge systems. They assume that objects can be reduced to discrete units of information. They assume that meaning is contained within the object or image itself, rather than emerging from relationships. They assume that classification is a neutral act, rather than a practice shaped by particular cultural structures.
A prática de “museus vivos” mostra que os objetos não são dados, mas portadores vivos de memória, conhecimento e território. Os metadados que os descrevem em catálogos de museus falham em capturar sua existência relacional. A ideia de “imagem-parente” mostra que as imagens não são objetos passivos, mas participantes ativos em redes de memória e responsabilidade. Os metadados que as classificam falham em considerar sua capacidade de se comunicar através de sonhos, rituais e relacionamentos mais próximos entre quem vê e o que vê. Por fim, o conhecimento não é informação que pode ser armazenada e transmitida à distância. Os metadados que poderiam descrever técnicas cerâmicas falham em capturar o que só pode ser aprendido através da presença, prática e experiência corporificada.
The practice of “living museums” shows that objects are not data, but living carriers of memory, knowledge, and territory. The metadata that describe them in museum catalogues fail to capture their relational existence. The idea of the “kin-image” shows that images are not passive objects, but active participants in networks of memory and responsibility. The metadata that classify them fail to consider their capacity to communicate through dreams, rituals, and closer relationships between the one who sees and what is seen. Finally, knowledge is not information that can be stored and transmitted at a distance. The metadata that might describe ceramic techniques fail to capture what can only be learned through presence, practice, and embodied experience.
Como poderiam ser os protocolos alternativos para trabalhar com imagens e dados? As práticas dessas pesquisas oferecem algumas direções.
What might alternative protocols for working with images and data look like? The practices of these research projects offer some directions.
Primeiro, relação em vez de extração. Em vez de extrair imagens e objetos de seus contextos e reduzi-los a dados, essas práticas enfatizam a manutenção e construção de relacionamentos. O museu vivo mantém o conhecimento conectado ao território e à comunidade. A imagem-parente de Glicéria transforma imagens coloniais em parentes, criando redes de cuidado e responsabilidade. A reativação cerâmica de Irineu constrói pontes entre comunidades através da presença e troca.
First, relation instead of extraction. Instead of extracting images and objects from their contexts and reducing them to data, these practices emphasize maintaining and building relationships. The living museum keeps knowledge connected to territory and community. Glicéria’s kin-image transforms colonial images into kin, creating networks of care and responsibility. Irineu’s ceramic reactivation builds bridges between communities through presence and exchange.
Segundo, presença em vez de distância. Em vez de assumir que o conhecimento pode ser transmitido apenas através de imagens digitais, essas práticas enfatizam a necessidade de presença. A pesquisa da cerâmica terena demonstra que algumas formas de transmissão não acontecem à distância. Elas exigem deslocamento físico, troca humana e tempo. Isso desafia a lógica dos conjuntos de dados, que são construídos sobre a suposição de que as imagens podem substituir as coisas que representam.
Second, presence instead of distance. Instead of assuming that knowledge can be transmitted solely through digital images, these practices emphasize the need for presence. The Terena ceramics research demonstrates that some forms of transmission do not happen at a distance. They require physical displacement, human exchange, and time. This challenges the logic of datasets, which are built on the assumption that images can replace the things they represent.
Terceiro, tempo em vez de velocidade. Em vez da coleta e anotação rápida de imagens em escala, essas práticas enfatizam o tempo necessário para o aprendizado, a relação e a transmissão. O processo de aprender cerâmica envolveu múltiplas visitas, conversas e correções ao longo de meses e anos. A investigação sobre bordunas Tupinambá foi guiada por sonhos que se desdobraram ao longo do tempo. O trabalho de reconectar comunidades com seu patrimônio cultural via museus abertos é um processo de longo prazo de construção de confiança e capacidade.
Third, time instead of speed. Instead of the rapid collection and annotation of images at scale, these practices emphasize the time necessary for learning, relation, and transmission. The process of learning ceramics involved multiple visits, conversations, and corrections over months and years. The investigation into Tupinambá clubs was guided by dreams that unfolded over time. The work of reconnecting communities with their cultural heritage through open museums is a long-term process of building trust and capacity.
Quarto, multiplicidade em vez de singularidade. Em vez de categorias únicas e fixas, essas práticas reconhecem múltiplas camadas de significado e múltiplas formas de conhecer. O trabalho das bordunas Tupinambás combina ferramentas tecnológicas com abordagens espirituais, precisão técnica com escuta cuidadosa. O museu vivo reconhece que o conhecimento existe em múltiplas formas: em objetos, em práticas, em corpos, em territórios. A prática cerâmica terena conecta conhecimento técnico com compreensão cosmológica, relações de gênero e construção comunitária.
Fourth, multiplicity instead of singularity. Instead of single, fixed categories, these practices recognize multiple layers of meaning and multiple ways of knowing. The work with Tupinambá clubs combines technological tools with spiritual approaches, technical precision with careful listening. The living museum recognizes that knowledge exists in multiple forms: in objects, in practices, in bodies, in territories. Terena ceramic practice connects technical knowledge with cosmological understanding, gender relations, and community building.
Entretanto, esses protocolos alternativos levantam uma questão difícil: eles podem ser traduzidos para a estrutura do aprendizado de máquina? É possível construir conjuntos de dados que operem de acordo com lógicas relacionais em vez de extrativistas?
However, these alternative protocols raise a difficult question: can they be translated into the structure of machine learning? Is it possible to build datasets that operate according to relational rather than extractivist logics?
Há razões para o ceticismo. A escala do aprendizado de máquina (milhões ou bilhões de imagens) parece incompatível com a ênfase na presença, tempo e relacionamento que caracteriza essas práticas indígenas. A velocidade e distância da coleta de dados parecem antitéticas aos processos lentos e corporificados de transmissão de conhecimento.
There are reasons for skepticism. The scale of machine learning (millions or billions of images) seems incompatible with the emphasis on presence, time, and relationship that characterizes these Indigenous practices. The speed and distance of data collection seem antithetical to the slow and embodied processes of knowledge transmission.
No entanto, também há possibilidades. O trabalho de pesquisadores como Malevé (2021) sobre “as ruínas do conjunto de dados” sugere que podemos abordar os conjuntos de dados de forma diferente: não como recursos estáveis e autoritários, mas como construções frágeis e parciais que estão sempre em processo de decadência.
However, there are also possibilities. The work of researchers such as Malevé (2021) on “the dataset’s ruins” suggests that we can approach datasets differently: not as stable and authoritative resources, but as fragile and partial constructions that are always in a process of decay.
Talvez a questão não seja se as práticas de conhecimento indígena podem ser traduzidas em conjuntos de dados, mas se a lógica dominante dos conjuntos de dados pode ser aberta a outras possibilidades. Como Moreschi (2024, tradução livre) argumentou, o quarto autor deste artigo e o único não indígena, “a abordagem a dados e imagens desenvolvida no Norte Global, especialmente por grandes empresas de tecnologia, é apenas uma maneira possível de fazer as coisas. Não é a única maneira”.
Perhaps the question is not whether Indigenous knowledge practices can be translated into datasets, but whether the dominant logic of datasets can be opened to other possibilities. As Moreschi (2024, free translation), the fourth author of this article and the only non-Indigenous one, argued, “the approach to data and images developed in the Global North, especially by large technology companies, is only one possible way of doing things. It is not the only way.”
7. Conclusão: A decadência de uma promessa
7. Conclusion: The Decay of a Promise
A imagem digital, organizada em conjuntos de dados de treinamento em larga escala, prometia precisão, objetividade e abrangência. Ela aparecia como uma garantia tecnológica de verdade, uma documentação confiável do mundo que poderia treinar máquinas para ver e conhecer.
The digital image, organized into large-scale training datasets, promised precision, objectivity, and comprehensiveness. It appeared as a technological guarantee of truth, reliable documentation of the world that could train machines to see and know.
Esta promessa está em decadência. As práticas das pesquisas aqui discutidas revelam seus limites. Elas mostram que os objetos não são dados, que as imagens não são passivas, que o conhecimento não pode ser transmitido à distância. Elas mostram que a lógica de extração, classificação e armazenamento que sustenta o aprendizado de máquina é apenas uma maneira de se relacionar com imagens e conhecimento, e não necessariamente a mais adequada ou a mais justa.
This promise is in decay. The research practices discussed here reveal its limits. They show that objects are not data, that images are not passive, that knowledge cannot be transmitted at a distance. They show that the logic of extraction, classification, and storage that sustains machine learning is only one way of relating to images and knowledge, and not necessarily the most appropriate or the fairest.
O fracasso da imagem digital não é um fracasso de precisão técnica, mas um fracasso de epistemologia. É um fracasso em reconhecer que o conhecimento não é informação, que o significado não está contido nos objetos, que a transmissão exige presença e relação. É um fracasso em reconhecer que existem outras formas de conhecer, outras formas de se relacionar com imagens e objetos, outras formas de preservar e transmitir conhecimento.
The failure of the digital image is not a failure of technical precision, but a failure of epistemology. It is a failure to recognize that knowledge is not information, that meaning is not contained in objects, that transmission requires presence and relation. It is a failure to recognize that there are other ways of knowing, other ways of relating to images and objects, other ways of preserving and transmitting knowledge.
O que essas práticas indígenas oferecem não é uma substituição para o aprendizado de máquina, mas uma provocação. Elas desafiam a suposição de que todo conhecimento pode ser reduzido a dados. Elas desafiam a ideia de que as imagens podem substituir as coisas que representam. Elas desafiam a lógica de extração que sustenta grande parte da tecnologia contemporânea.
What these Indigenous practices offer is not a replacement for machine learning, but a provocation. They challenge the assumption that all knowledge can be reduced to data. They challenge the idea that images can replace the things they represent. They challenge the logic of extraction that sustains much of contemporary technology.
Engajar-se com essas práticas não é sobre traduzi-las ou aplicá-las ao contexto do aprendizado de máquina de maneira redutiva ou extrativista. Não é sobre instrumentalizar conhecimento que foi desenvolvido ao longo de séculos em contextos específicos. Em vez disso, é sobre aprender com elas, aprender formas de se relacionar com imagens, objetos, comunicação e transmissão de conhecimento que nos ajudem a repensar nosso próprio trabalho e imaginar outras possibilidades além das estruturas dominantes.
Engaging with these practices is not about translating or applying them to the context of machine learning in a reductive or extractivist manner. It is not about instrumentalizing knowledge that has been developed over centuries in specific contexts. Instead, it is about learning from them, learning ways of relating to images, objects, communication, and knowledge transmission that help us rethink our own work and imagine other possibilities beyond dominant structures.
O conceito de “museu vivo”, a prática de “imagem-parente”, a ênfase na transmissão corporificada—estas não são apenas maneiras alternativas de fazer as coisas. Elas são lembretes de que o conhecimento é sempre relacional, sempre situado, sempre em movimento. Elas são convites para pensar de outra forma sobre como nos relacionamos com imagens, com dados, uns com os outros e com o mundo.
The concept of the “living museum,” the practice of the “kin-image,” the emphasis on embodied transmission—these are not merely alternative ways of doing things. They are reminders that knowledge is always relational, always situated, always in motion. They are invitations to think differently about how we relate to images, to data, to one another, and to the world.
A decadência da promessa da imagem digital não é algo a ser lamentado. É uma abertura, um espaço para imaginar outras possibilidades, outros protocolos, outras formas de conhecer e ser.
The decay of the promise of the digital image is not something to be lamented. It is an opening, a space for imagining other possibilities, other protocols, other ways of knowing and being.
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